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Maria e a Eucaristia - Maria forma a Alma Eucarística de Seu Filho

Maria e a Eucaristia - Maria forma a Alma Eucarística de Seu Filho

POSTADO EM 17.05.2017
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Muito mais do que um “objeto”, a Eucaristia é um ato, o ato supremo da vida de Jesus, sua autodoação ao Pai em nosso favor, em forma sacramental. É sua oblação salvífica, sacrificial, de si mesmo ao Pai, em amor e obediência, que tira nossos pecados e nos capacita a receber o Espírito Santo.

Misteriosamente, Maria torna a Eucaristia possível. Prepara Cristo para fazer essa oblação. Com certeza, ela é a “causa material” da Eucaristia; provê Jesus com o corpo humano que ele irá entregar. Mas também forma nele a “alma” que ele irá oferecer. Sua vida, suas disposições, suas atitudes modelarão maternalmente sua alma e o orientarão à autodoação completa, que é a Eucaristia. S. Agostinho escreve que Maria concebeu o Verbo em sua mente antes de concebê-lo em seu corpo e que sua primeira “concepção” interior toma precedência sobre a segunda. De modo semelhante, podemos afirmar que Maria infunde uma interioridade em Jesus assim como o reveste de sua carne e de seu sangue, assim como o “encarna”. Isso é de grande importância.

Como Maria faz isso? Ela o faz por meio das interações com seu Filho no decorrer de toda sua vida juntos. Consideremos três, entre as mais marcantes. A primeira interação de Maria com seu Filho acontece na Anunciação. Para alguns autores espirituais (incluindo a mística suíça do século XX Adrienne von Speyr), a Anunciação é o momento definidor da vida de Maria, o instante para o qual se direcionava tudo o que havia antes e do qual fluía tudo o que veio depois, a ocasião que deu consistência a sua vida. Nessa hora, ela recebeu a vontade de Deus em si com completa e alegre submissão.

Esse total abandono à vontade de Deus coincidiu com o primeiro instante do Verbo se fazendo carne. O Fiat de Maria e a encarnação do Verbo são duas dimensões de um acontecimento único (sentimos isso ao rezar o Angelus: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra[...]. E o Verbo se fez carne”). O primeiríssimo momento da existência humana de Jesus, portanto, recebeu uma direção da maneira como sua mãe o recebeu.

Hoje somos muito conscientes da influência que uma mulher grávida exerce sobre a nova vida sendo gerada dentro dela. Essa influência não se limita à condição física da mulher ─ se ela fuma ou não, se bebe ou não, se usa drogas ou não, se está em boa saúde ou se tem alguma doença. A condição espiritual da mãe também se comunica à vida que está apenas começando, uma vida que é, em sua totalidade, dependente e, por essa razão, infinitamente receptiva.

Jesus, na vulnerabilidade de sua geração como ser humano, “assume a mente” de Maria. Assim como ela, na Anunciação, confia de modo irrestrito na vontade do Pai, Jesus o faz ao entrar em seu ventre. Isso não é fantasia. É como a Carta aos Hebreus, usando o Sl 39 como base para reflexão, compreende a atitude fundamental de Cristo em seus primórdios humanos:“Quando Cristo veio ao mundo, ele disse: ‘Vós me destes um corpo...’. Então eu disse: ‘Eis que venho fazer a vossa vontade, Senhor’” (10.5a.c.7a).

A segunda interação ocorre40 dias após o nascimento de Jesus, quando Maria o leva ao Templo. Os Padres da Igreja reconhecem que isso é muito mais que uma formalidade, muito mais que o simples cumprimento dos requisitos rituais da Lei, que exige que todo primogênito do sexo masculino, que “pertence” por natureza ao Senhor, seja “redimido” de suas obrigações de primogenitura pelo sacrifício substitutivo de um par de rolinhas, de dois pombinhos. Pelo contrário, embora Maria e José levem a oferenda animal ao Templo, vão para este não para dispensarem Jesus de ser sacrificado, mas precisamente para “oferecê-lo ao Senhor”, no sentido mais pleno do termo.

O santo ancião, Simeão, iluminado pelo Espírito Santo, é quem expressa em palavras a oblação de Jesus, que está acontecendo de modo antecipatório. Apesar de Jesus ser um bebê de apenas alguns meses, Simeão já o descreve, em termos de seu mistério pascal, como um sinal de contradição, posto para a queda e para o reerguimento de muitos, porque ele mesmo, Jesus, deverá “cair” na morte e “reerguer-se” na ressurreição. Maria leva Jesus ao Templo tanto para oferecê-lo ao Pai quanto para lhe ensinar a oferecer-se ao Pai. Parte da humanidade que Jesus assume indica que ele deve “aprender” a ser um holocausto salvífico.

Há uma maravilhosa pintura do renascentista italiano Caravaggio em que algo muito similar é apresentado visualmente. Maria é mostrada esmagando a serpente com seu pé. Segura um Jesus muito jovem, em uma posição ereta, ensinando-lhe a juntar-se a ela no esmagamento da serpente com seu próprio pé. Já no Templo, Maria oferece o sacrifício ritual por sua própria purificação e ensina Jesus a se oferecer pela purificação do mundo.

Se, no mistério da Apresentação, Maria, de certa forma, “atua por” Jesus, no final dos mistérios gozosos (a próxima interação biblicamente registrada, e a terceira aqui exposta, entre mãe e filho), Jesus atua por conta própria. Vemos que a formação de Maria “pegou”. Maria e José levam Jesus ao Templo para participar na Páscoa, no sacrifício da vítima pascal. Após tomarem parte nos dias prescritos de adoração e oferenda ritual, Maria e José voltam para casa. Mas a participação ativa na Liturgia Pascal tocou profundamente Jesus, de tal modo que ele é incapaz de deixar o Templo com seus pais. Jesus testemunhou uma ação sagrada e reconhece, de forma intuitiva, a ligação íntima dela com sua identidade pessoal.

Anos mais tarde, no Jordão (segundo o Evangelho de João), João Batista proclamará Jesus exatamente como o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Porém, esse reconhecimento é uma experiência que o menino Jesus, na fronteira de se tornar o homem Jesus, tem por si mesmo em sua primeira visita consciente ao Templo. É mais do que coincidência que a sagrada família viaje para Jerusalém para observar a Páscoa, ao invés de uma das demais festas que obrigam todos os judeus adultos a fazerem a viagem à cidade santa.

Jesus vai ao Templo para a festa da libertação, uma libertação realizada pela oferenda de um cordeiro macho imaculado e sem defeito. E ele fica ali, deslumbrado. Maria e José ficam perplexos diante do desconhecimento de seu paradeiro, procuram-no em todo lugar possível. Quando finalmente o descobrem, Jesus fica perplexo diante de sua falta de compreensão. Como eles podem não entender que nessa experiência ele encontrou definitivamente seu lugar, seu destino e Aquele a quem pertence sem quaisquer limites? Seu verdadeiro lar é o Templo de Deus em Jerusalém, tanto por ser “a casa do Pai” quanto por ser o lugar onde o sacrifício expiatório é feito. Algo “estalou” no coração de Jesus; algo que jamais pode ser desfeito, apenas plenamente realizado.

Quanto à Maria, o texto de Lucas diz que nem ela nem José compreendem a pergunta de Jesus: “Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai?”. Vejam, Jesus fala no presente ─ no presente perpétuo ─ em vez de usar o passado. Em outras palavras, de agora em diante, Jesus sempre estará em um único e mesmo lugar ─ a casa do Pai ─, engajado em uma única atividade ─ fazer a vontade do Pai.

Não obstante, devemos falar tanto de uma compreensão como de uma incompreensão da parte de Maria. Pode ser que, naquele momento particular, Maria estivesse tomada de surpresa pelo “desaparecimento”, pela “perda” de Jesus, e não soubesse onde procurá-lo. Porém, por outro lado, é aqui que Jesus, em sua autonomia, mostra ser não apenas o filho de seu Pai celestial, mas também de Maria. É nesse incidente do Evangelho que Jesus manifesta todas as características que Maria demonstrou na Anunciação: não apenas receptividade à vontade do Pai, mas também prontidão em ser mal compreendido e julgado.

Maria, na Anunciação, “pondera” que José provavelmente não iria compreender sua gravidez e que essa incompreensão só seria resolvida por Deus. Do mesmo modo, Jesus tem que levar em conta que a permanência no Templo sem o conhecimento ou a permissão de seus pais pode ser incompreensível tanto para Maria quanto para José e que somente o próprio Deus poderá explicar seu comportamento a eles. Quer dizer, ao optar por se manter em Jerusalém, Jesus está escolhendo o Pai celestial como aquele a quem, a partir de então, prestará obediência inabalável. Além disso, toma essa decisão no contexto da Páscoa; portanto, será aquele que viverá sua obediência mediante o sofrimento (ou, como afirma a Carta aos Hebreus, será “tornado perfeito através do sofrimento”). Maria deve ter compreendido, de alguma forma, aquilo que estava se passando dentro do coração de seu filho e, na medida em que o fez, deve ter se regozijado. Seu filho estava se preparando para cumprir sua missão, a missão para a qual ela tinha lutado para lhe preparar.

Esses três incidentes sobre os quais meditei com vocês foram todos tirados do Evangelho de Lucas. Imediatamente após o incidente no Templo, descreve-se Jesus “voltando com eles [José e Maria] para Nazaré e sendo-lhes submisso”. Conhecendo a perda e o reencontro de Jesus, sabemos que a obediência de Jesus a seus pais é “secundária”. De agora em diante, toda a obediência de Jesus direciona-se, primeiramente, ao Pai, como é o caso da obediência de Maria e José.

Jesus aparentemente permanece mais 18 anos em Nazaré antes de empreender seu ministério público. Todavia, com sua perda e seu reencontro no Templo, o trabalho essencial de Maria se completa. Este foi preeminentemente maternal. Ela dirigiu o coração de seu Filho a uma auto-oblação incondicional, a se tornar Eucaristia. No decorrer de todo o restante do Evangelho, sobretudo nas narrativas da Paixão, Jesus mostrará o quão completa e fielmente ele absorveu o ensinamento de sua mãe, o quão perfeitamente ele é o Filho de Maria. Embora não seja uma opinião majoritária, há alguns exegetas que afirmam que, quando Jesus diz na Cruz “Mulher, eis aí o teu Filho”, o “Filho” ao qual se refere não é apenas João Evangelista, mas também ele mesmo. Na Cruz, Jesus se tornou o Filho de Maria em completa e perfeita semelhança.

Em tudo isso, vemos que Maria, com a particularidade e a integridade de sua santidade, foi indispensável para o plano de Deus. Para que Deus gerasse um Filho que culminaria sua existência terrena na opção solene de dar-se como Eucaristia, tinha que achar uma mãe a quem pudesse confiar seu Filho para formá-lo nessa escolha. Talvez Deus estivesse à espreita durante toda a história do mundo desde Eva até Maria, a nova Eva. “Encontrei Maria, uma mulher segundo o meu coração”. Ou, como diz o Prefácio para a Missa de Nossa Senhora Aparecida, em uma oração dirigida ao Pai, “preparáveis para o vosso Filho mãe que fosse digna dele”.

Texto: Dom Bernardo (Mosteiro Trapista Campo do Tenente/PR)

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Artigo originalmente publicado na Revista Toca de Assis Maio de 2017

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